Eis o primeiro jogo das semifinais! Boa leitura!
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Jurado: Carlos André Moreira
Site / blog: http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/
Sobre: Nascido em São Gabriel em 1974, jornalista por formação, diplomado pela UFRGS em 1996. Há sete anos, ocupa a função de repórter cultural e crítico literário do jornal Zero Hora em Porto Alegre (RS). É também tradutor e escritor. Já publicou contos em antologias e o romance Tudo o que fizemos (Leitura XXI, 2009).
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1 – Um dos grandes méritos da Copa de Literatura é, e sempre foi, a forma como ela desafia os juízes participantes a fazer algo diferente – cada qual a seu modo. É por isso que optei por, nesta resenha, encontrar um caminho que levasse à comparação entre os dois livros participantes, mas não fosse a resenha padrão habitual que apresenta os dois competidores em separado e os confronta depois. Os dois livros competidores explodem a linearidade da narrativa, o que, para mim, pede uma leitura não linear. Então vamos pular de um para o outro ao sabor das conveniências. É um caminho aberto a críticas, mas qual não é?
2 – Este juiz em particular não vê motivos para reclamar da sorte no jogo que lhe coube. Considerando que algumas partidas desta Copa deixavam claro o quanto o árbitro que as apitava preferia estar em outro lugar praticando qualquer outro esporte – inclusive o incompreensível badminton –, este juiz usufruiu à larga aquela coisa que hoje parece tão antiga, o “prazer do texto”, ao ler os dois romances que chegam a esta semifinal – duas equipes de futebol vistoso e um currículo respeitável (essa metáfora futebolística está aqui porque estamos na Copa, mas não voltarei a usar nada do gênero, prometo).
3 – O filho da mãe, de Bernardo Carvalho e Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron, já começariam esta disputa com ao menos um elemento em comum: são ambos frutos do projeto Amores Expressos, que despachou um grupo de escritores para 17 cidades diferentes ao redor do planeta para passar um mês captando a atmosfera do lugar para usar em um romance escrito na volta. Mas não apenas disso os dois se assemelham. Tanto o livro de Bernardo quanto o de Terron narram histórias de fugas, com protagonistas marcados pela relação de ausência com as próprias mães e de sexualidade complexa, fora dos padrões heterossexuais. Esse não é um detalhe sem importância porque o sexo não é um detalhe sem importância nas duas narrativas, antes são sinais aos quais o personagem se apega para tentar definir-se em relação a um mundo exterior que não o aceita com facilidade.
4 – O fato de todos os romances da série Amores Expressos serem escritos por autores nacionais depois de uma temporada relativamente curta nos lugares visitados (e aqui não digo “países” porque André de Leones foi mandado para São Paulo) desperta uma série de indagações sobre o que cada escritor pôde produzir da ambientação de uma cidade que só conheceu por um mês. Em algumas caixas de comentários em outros jogos, foi levantada uma vertente bastante específica dessa questão: a “propriedade” do retrato do elemento checheno no livro de Bernardo Carvalho – alguém saiu-se com o termo “checheneidade” ou algo parecido. A questão pode ser estendida para o Egito retratado por Joca Terron. Para o juízo deste árbitro em particular, esta questão não conta (não a diminuo, só digo que não a considero), porque em última análise quem tem condições reais de aferir a precisão do retrato nacional russo ou egípcio é um hipotético leitor ideal “russo” e “egípcio”. Aos que como nós tiveram o fado de nascer no Brasil, resta o que o livro nos apresenta e o uso da imaginação – e se temos de avaliar o retrato apresentado com a imaginação, também o autor está no direito de usar a sua própria imaginação para captar esse retrato. O valor simbólico exato da representação só pode ser percebido “de dentro” da realidade representada, portanto, essa questão fica em aberto para mim sem que eu particularmente lamente por isso.
5 – No início, o romance de Carvalho parece desdobrar-se em uma série de tramas e personagens paralelos, e é apenas com o desenrolar da narrativa que somos apresentados ao foco real do romance: o encontro em uma São Petersburgo cinza e árida dos jovens Andrei, russo, e Ruslam, checheno. Mais do que “filhos da mãe”, ambos são “filhos sem mãe”. O que coloca Andrei e Ruslam em movimento um em direção ao outro é o abandono, a ausência de uma mãe de fato – de um pai também, a bem dizer, mas a ausência do pai é um tema abordado com muito mais frequência na literatura. A mãe de Ruslam, Anna, acompanhou o marido até a Chechênia natal deste e, tão logo teve a criança, fugiu de volta para São Petersburgo, largando por lá filho e marido. Anos mais tarde, com a eclosão da guerra na Chechênia, Ruslam foge de um campo de refugiados (ajudado pelo sacrifício da última parente viva, a avó) e vai a São Petersburgo procurar a mãe que o abandonou. Andrei é filho de um biólogo brasileiro ex-comunista exilado em Moscou. Após seu nascimento, o pai volta para o Brasil. A mãe se casa de novo com um autoritário oficial da marinha e Andrei, por insistência do padrasto e por omissão covarde da mãe, acaba alistado no desmantelado exército russo e aquartelado em São Petersburgo.
6 – Também a ausência da mãe é uma das molas a impulsionar a jornada física e existencial da/do protagonista de Do fundo do poço se vê a lua. A/O narrador/a começa o livro como Wilson, nascido gêmeo de William. Ambos desenvolvem, apesar da aparência física idêntica, personalidades opostas quase misticamente: Wilson tem a inclinação voltada para o universo feminino, é um artista talentoso e chega a vivenciar uma cegueira psicológica parcial quando olha para seu próprio pênis. Não vê nada, apenas um vazio. William, pelo contrário, é brutal, masculino, agressivo, violento e tem pelo irmão um interesse possessivo. Narrado em primeira pessoa por Wilson, já transformado em Cleo após uma operação de mudança de sexo, o livro acompanha a viagem de William ao Egito em busca do irmão desaparecido 20 anos antes após uma inundação no teatro mantido pelo pai de ambos, um ator gordo e decadente.
7 – Ambos os autores semeiam suas histórias com símbolos. Em O filho da mãe, são vários os signos da maternidade espalhados logo na primeira cena, na qual nos é apresentado um “comitê de mães de soldados” e é narrada uma passagem de solidariedade feminina protagonizada por Anna Akhmátova, cuja poesia foi silenciada pelo regime soviético, mas que não se furta a declamar um poema para uma mulher cujo filho morreu nos campos de prisioneiros russos. É uma solidariedade de mãe: Akhmátova também teve o filho preso, e tem medo de que o levem de novo se ela escrever. A chama da solidariedade materna em meio ao totalitarismo é clandestina, jamais declarada – algo que se repetirá em outras situações ao longo do romance. O próprio amor incondicional de mãe, tão elogiado pela literatura engajada (Brecht, Górki), é, no livro de Carvalho, associado com o mesmo impulso tribal que deflagra guerras como aquela da qual Ruslam tenta escapar:
“As mães têm mais a ver com as guerras do que imaginam. É o contrário do que todo mundo pensa. Não pode haver guerra sem mães. Mais do que ninguém, as mães têm horror a perder. Você é capaz de tudo para evitar a morte de um filho. É capaz de defendê-lo contra a própria justiça.Os filhos estão acima de qualquer suspeita. Você é capaz de matar por um filho. E acaba recebendo o troco na mesma moeda quando a guerra o leva. Está pronta para defender a prole e o clã contra tudo. Sem querer ver que é daí que nascem as guerras.”
8 – O livro de Joca Terron também lida com a noção de maternidade ausente. Os gêmeos são filhos de uma militante clandestina de esquerda, morta no parto. O último de uma série de codinomes adotados pela mãe é Cleópatra, e a figura da rainha ptolomaica será uma obsessão para Wilson, bem como sua intérprete mais célebre, Elizabeth Taylor, ambas confundindo-se em seu íntimo com a sua própria imagem feminina e com a figura da própria mãe. E a noção de mãe e a de cidadania de algum modo se confundem, como afirma o pai dos gêmeos, que mantém um teatro caindo aos pedaços no centro de São Paulo:
“De certa forma, Enoque e Roma, assim como todas as cidades deste planeta, evocam a ideia de maternidade. Cidades são entidades femininas por excelência. A cidade do Cairo, por exemplo, é conhecida como a Mãe do Mundo. E Al-Qaira, o nome árabe original do Cairo, quer dizer ‘A Vitoriosa’. Um epíteto bastante feminino, não acham?”
9 – Outro elemento simbólico apresentado já no primeiro capítulo de O filho da mãe são as supostas 300 pontes existentes em São Petersburgo. Com tantas pontes na cidade, o que veremos ao longo das 200 páginas do romance serão tentativas de contato que falham em romper o isolamento dos indivíduos. Viver em uma cidade com três centenas de pontes não parece facilitar em nada a conexão dos personagens uns com os outros.
10 – Já em O fundo do poço..., os signos remetem duplamente (como não poderia deixar de ser, dada a trama do romance), ao tema do duplo e das relações de família. Não apenas os gêmeos chamam-se William e Wilson, como no conto de Poe em que o narrador se vê acossado pelo seu doppelgänger, como várias outras obras sobre o duplo ou sobre gêmeos são mencionadas – todas em algum momento encenadas pelos irmãos no palco do teatro decadente do pai dos garotos. Uma obsessão despertada na primeira vez que o rapaz vê o filme de Mankiewicz. Cléopatra é, para Wilson, a encarnação da personalidade feminina e surge ela própria como um signo deliberado, uma vez a Cleópatra precisou coroar-se depondo seu irmão – e os próprios termos “irmão” e “irmã” nos textos do Antigo Egito são muitas vezes usados como equivalente a “amantes”, o que acentua a tensão afetiva e sexual presente desde o início entre os dois irmãos.
11 – Wilson/Cleo passa por um período de prolongada amnésia após o acidente no teatro – e as ausências da memória esquiva não são um tema novo para Joca Terron, que já o havia abordado em linhas gerais nos contos de Curva do Rio Sujo. Enquanto serve como observadora onisciente dos movimentos do irmão pelas ruas poeirentas do Cairo à sua procura, Cleo também relembra os passos que a levaram até ali. O primeiro capítulo, fartamente elogiado pelo escritor Antônio Xerxenesky em sua resenha, de fato serve como uma mais do que eficiente introdução ao livro, não apenas em termos temáticos (somos apresentados a Wilson, a William, à figura de Cleópatra e ao caos da capital egípcia) como estilísticos. As frases extensas e tortuosas, cheias de apostos, às vezes longuíssimas, parecem querer representar com sua música arrevesada a algaravia (palavra árabe, não esqueçamos) reinante no Cairo por onde William transita. A vertigem daquela declamação ininterrupta produzida pela narradora não deixa de produzir uma desorientação semelhante à do próprio personagem no país estrangeiro, como nesta frase:
“Misturadas ao chamamento à oração proclamado pelos muezins, as buzinas dos táxis também se elevam, atingindo os tímpanos de William, sensibilizados pela ressaca, além de chegarem aos ouvidos das pessoas no interior dos milhares de bazares distribuídos por quarteirões intermináveis e nos gigantescos edifícios públicos pela cidade inteira, dentro de milhões de apartamentos em prédios próximos de desabar, dando nas construções que são devoradas a partir dos alicerces pelo deserto encobrindo bairros desde Heliópolis até Gizé e adiante, assomando em direção a Mar Girgis no bairro copta e aos subúrbios de Muqattam e Ma’adi e ainda mais além.”
Mais além no mesmo capítulo, o narrador confirmará a intenção de aproximar o ritmo da prosa da algaravia oriental ao comparar o ruído dos camelôs de São Paulo ao árabe.
12 – Mas Cleópatra e a forma como o narrador a descobre não deixam de representar um problema de verossimilhança que saltou aos olhos deste juiz. Há um tom mágico e delirante na jornada de Wilson/Cleo, e coisas que nesse romance acontecem não seriam de se imaginar em uma obra de corte realista: o teatro do pai dos jovens desaba depois de ser inundado em uma enchente; Cleo, ainda amnésica, é amparada por um enfermeiro após o incidente no teatro; depois, envolve-se em uma tragédia/triângulo amoroso e precisa fugir – é abrigada pelos travestis da rua Major Sertório e logo está usando conhecimentos de coiffeur para re-transformá-los em versões aproximadas, ainda que grotescas, de estrelas do cinema americano (ideia que já estava em L.A. confidential, de James Elroy). Ok, tudo isso é válido. Mas quando a tecnologia faz a sua aparição no mundo das fábulas, ainda que malditas, instala-se um ruído, principalmente quando há tentativas de datar a ação e ancorá-la no mundo concreto extra-literário. É dito pelo próprio Wilson/Cleo que os gêmeos nasceram em 1967. Enquanto William prefere brincar de faroeste, Wilson prefere se esconder no meio dos vestidos do armário da mãe, quando ambos devem andar pelos oito anos de idade. E é por essa época, dá a entender o livro, que Wilson descobre o filme de Cleópatra em um VHS encontrado nesse mesmo armário – e o VHS foi lançado em 1976 e só se tornou uma realidade comercial a partir dos anos 1980. É aí que reside um problema de verossimilhança que, intencional ou não, joga o leitor para fora do universo literário do romance – e a cada vez que Joca tenta estabelecer uma nova ancoragem de seu romance no mundo “real” (O paradoxo de Langevin, a Guerra do Sinai contra Israel, as datas do diário que Wilson mantém nas margens de uma biografia de Liz Taylor, a própria biografia de Liz Taylor), esse detalhe volta à memória e prejudica a intenção.
13 – Nesse sentido, embora não se possa avaliar por completo a “checheinedade” de ambos os romances, como já dito, o livro de Bernardo Carvalho sustenta com mais eficiência a ilusão ficcional de seu universo próprio. A guerra na Chechênia retratada no livro não é necessariamente a guerra “real”, mas maneja os referenciais reais de modo orgânico com a proposta de suas várias subtramas.
14 – Joca corre mais riscos em seu livro, ousa mais. A começar pela prosa que serpenteia em cadências variáveis, preferindo os jorros e as frases que seguem umas às outras atropeladas como em uma litania. Por ter um único narrador, a figura de Wilson/Cleo, e de lidar com uma narrativa que se alterna entre no mínimo três camadas de tempo diversas (a infância dos gêmeos e sua vida em São Paulo, a vida de Cleo no Egito e a procura de William pelo irmão no Cairo), Joca sustenta a narrativa com idas, vindas e o recurso de atiçar a curiosidade do leitor pelos vários mistérios antecipados nos primeiros parágrafos: o que aconteceu para William e Wilson não se falarem por 20 anos? O que aconteceu com Cleo no Egito? Qual o paradeiro de Cleo? De onde Cleo fala enquanto narradora para ter uma visão tão nítida dos passos de William? (este mistério em particular, embora só revelado no último capítulo, é passível de ser intuído com bastante antecedência – há uma pista já na capa –, o que torna as “iscas” lançadas por Cleo mais cansativas do que propriamente instigantes). Nem sempre essa costura é equilibrada, contudo, e Do fundo do poço perde a força em uma boa parte de seu desenvolvimento pelos fios frouxos da narrativa longa em demasia (não creio que haja um tamanho padrão a partir do qual uma narrativa seja considerada “longa demais”, apenas que, se conduzida com mão pouco firme, prevalece a impressão de muita coisa sobrando).
15 – Não há mistérios de tal natureza em O filho da mãe – a história não é exatamente linear, porque se espraia por vários pontos de vista, ajudado pela terceira pessoa narrativa (não, este juiz não tem preconceitos de antemão com o recurso da narrativa em terceira pessoa, irônica ou não). O mistério se constrói no estabelecimento das relações entre os vários personagens da trama: Andrei, Ruslam, seus parentes, padrastos, irmãos postiços desconhecidos, pais ausentes, mães negligentes. Também no tempo a narrativa se dilata e se comprime, pulando do primeiro capítulo, na comemoração do tricentenário de São Petersburgo em 2003, para eventos “um ano antes”, e mais tarde “semanas depois”. A prosa bem torneada que Carvalho apresentava em Mongólia e Nove noites aqui se acha mais econômica, sustentada em frases breves que, no entanto, encadeiam-se de modo harmônico, evitando o ritmo entrecortado que tal recurso poderia evocar.
16 – O filho da mãe, por levar seu leitor por seus meandros sem abrir mão da atmosfera inquietante construída com tanto esmero, acaba por surpreender mais – justamente porque a indeterminação do rumo de sua narrativa casa-se à perfeição com a sensação de ameaça e tragédia que paira sobre o universo íntimo de seus personagens. A rigor, tal sensação de ameaça talvez devesse estar mais à flor do texto também em Do fundo do poço, uma vez que a conclusão do livro se dá em tintas dramáticas e violentas, mas não é o que ocorre, razão pela qual declaro O filho da mãe o vencedor de uma disputa gloriosa e renhida.
17 – Ah, sim, e por que 17 tópicos? Porque 17 são as regras do futebol.


















